terça-feira, 14 de maio de 2019

Aviões levam corpos que levam brisas, quiçá vento: Corpos Informáticos (e)vento



Aviões levam corpos que levam brisas, quiçá vento: Corpos Informáticos (e)vento


Bia Medeiros, Mariana Brites e Natasha de Albuquerque
(Este texto foi publicado no Catálogo Corpuis Urbis. Menezes, Cristaiana Nogueira (org.). Macapá: UNIFAP, 2018. ISBN: 978-85-5476-050-2)


Trocas, calor, brisa, calor, suor, vermelho esparramando nas encruzilhadas, cruzilhadas, amadas, a pele esfolada, cortada, o dentro vermelho em tudo: lojas, carros, roupas e bombeiras. O ketchup é vermelho sangue, o sangue é vermelho ketchup de fast food (Thaíse Nardim). As(o) Amazonas comem enceradeiras, afogadeiras. Enceradeiras: encenadeiras, en-senadores, senadores usados sem ardores se foram, encenadores usados: performance.



Thaíse Nardim - Foto Natasha de Albuquerque

Ainda no ar, na máquina, imitando bicho que voa, entendemos que estacamos no caminho da ilha.
Tantos rios, afluentes, igarapés e mata fechada que os corpos vindos do Planalto Central já transbordavam. Para ir, levavam consigo as variações do vermelho e do sangue. No primeiro dia (percebemos) pessoas em vermelho e quanto mais o tempo ia passando, mais elas surgiam, a cidade se coloria: de colorindo mas muito puxado pro vermelho, vivificando o sol à pino de todo dia.

_ Visto vermelho porque gosto.
_ Visto vermelho porque vesti hoje.
_ Visto vermelho ponto.

Chuvas esporádicas principalmente dentro de cada um, diz a meteorologia sem método: não houve chuva, só rios transbordando encontros esperados/desesperados/irados.

_ PERAÍ!

Vermelho urucum, argila, pele vermelha. Açaí, saci, birutas ao vento não foram. Mas as birutas humanas eram várias e junto com as enceradeiras abraçam os ventos criando movimento: dança.




A brisa úmida vinda do rio lambe nosso suor garantindo frescor barato e pleno. 



ALLA SOUB lança enceradeiras ao rio. Corpos Informáticos -  Foto: Rodrigo Munhoz

O rio, que também é mar, tem ressaca, vaza e enche, dança uma dança de sentir: muda o vento, faz invento. Inventa (e)ventos de acariciar tudo o que há na cidade.
Gostamos de encostar nas coisas, gostamos do dedo deslizando por cada fresta-corpo da cidade, temos vício pelo sangue vermelho que bate dentro das veias e faz a pele esquentar, vício pela pele, pelo com-tato que faz suar. Nos deslizamos em bloco, inundamos também a cidade de outros ritmos. Compomos outros momentos.  Nossa performance é o simples desvio, que não só nosso, é jogo aberto, sem time nem hora marcada.

Sim, o lançamento de enceradeiras ávidas por outros lugares (Campinas, Salvador, Natal, Maceió, Rio de Janeiro e São Paulo) deu-se, uma, duas, três vezes. E de repente: Mari lança a lança DE VERDADE: já não era mais performance: era vida real ou ketchup? Encerando a chuva do cerrado, que também não resiste à infinitude de água e pula no rio. Engolida pela maré que enchia, descansou ali no fundo por uma noite. Ansiedade: poluição? Será preciso abandoná-la? Metal vermelho e(m) pedras. O desapego foi presenteado no dia seguinte pelo retorno da enceradeira: As(o) Amazonas não quiseram nosso lixo, lixo-arte, lixo vermelho-metal, devolveu, volveu, nos presenteou com o inesperado: uma enceradeira vermelha que sorria, após o banho, forçado, porém delicioso.
Ela se diverte com o prazer daqueles que voltam para casa sujos!
Enceradeiras arranham ruas.

Seguem enceradeiras viagem a dentro, rodadas, acariciadas, penduradas, descansadas, descontextualizadas.

_ Macapá, senta cá, no meio do caminho e olha o horizonte.

O Marco Zero é o cu do mundo (Nycolas Albuquerque), rodeamos em volta, o cu é lindo. Composição Urbana. C.U. - o seu é lindo também. 



Com-posiçoes de prazer no Corpus Urbis. Foto: Corpus Urbis


Congela a pista no cu do mundo. Pára, no meio da rua, divagando, desvairando, uma alcatéia de desavisados vermelhos. Esquentadores de C.U. Assados em Macapá, qualquer C.U. num automóvel desliza na pista.

Carros param no Marco Zero, esticam o braço, pegam o panfleto e dizem: Obrigado. TALVEZ EU FOSSE ASSADO. Frango assado, talvez homem ou mulher, pede permissão de ser outra coisa, talvez, dúvida. Trans-euntes são esvaziados de justificativas, sem motivos de estarem ali, recebem informações erradas de errantes. Alguns se esquecem que tem C.U. e se espantam com tal heresia. Denuncia à polícia e leva de camburão um professor loiro de olhos azuis. O delegado ri e fala de Duchamp: Do chão do asfalto (du champ) se faz composição. Está livre! O C.U é livre! Quem tem cu põe o dedo aqui! (se não vai fechar)

Ninguém avisa quando a performance acontece, mixuruca.

As unhas incessantemente se pintam, não deixam-se pintar, de-fazer. Unhas defeitas: fofoqueiras se encostam nas nádegas alheias. Fura-bolo, cata piolho, maior de todos, anelar e mindinho, todos fuleiros defeitos de vermelho sangue.

_ "João disse eu te amoera a cor de um dos esmaltes
_ "André fez o jantarera a outra cor. Mas André não fez o jantar. Quem fez foi Cristiana Nogueira e Pablo Fernandez com a ajuda de Jorge Paulino, Chico Junior. Delícia: arroz de jambú com castanha do Pará, caldinho, beringela, abobrinha, tomate. E a gengibirra da noite passada ainda embalava os ritmos dos corpos.

No hotel, camadas são colocadas, camadas e mais camadas de roupas - desafio ao calor de Macapá 42 graus. O percurso é lento, pesado: 6 kilos de roupas fazem os 100 kilos de carne derreter. No mocó atrás da Fortaleza, as roupas são retiradas, quase retiram-se sozinhas, devido o  calor. 

Os pregos nas mãos suadas deslizam evitando o martelo tenso. Quanto menos roupas, mais calor. O corpo não se esquece tão fácil da experiência. Pouco a pouco, o esconderijo de beijos (mocó) passa a ser também guarda-roupa aberto, aleatório. Poucas pessoas passam mas todas observam de longe, o outro corpo que decompõe seu próprio corpo compondo a paisagem. Ali expostas, estendidas a sol e vento permanecem pouco mais que um dia. Outros corpos desavisados e convidados iteragem, levam embora, afogam, queimam, rasgam. Ninguém sabe o fim daquilo ali, e nem ao menos se teve fim.


Pode tudo n
ão passar de mais uma possível lenda do Forte, lugar ainda mal assombrado onde muitos corpos passaram, pararam e morreram. É na orla, que escorrem os corpos doloridos: contra-ponto, contra-forte, fraco. O vazio tão grande engole e faz lembrar da finitude dos corpos rebeldes, grades, roupas vazias, corpos pelados. Logo, dentro da Fortaleza São José, Raphael Couto sangra em sua pele uma bússola, sem norte, um instrumento impreciso de medição geográfica, potente imagem. Que vêem os corpos do Sul para o Norte? Ris(c)o na pele, tatuagem carnificada, marca histórica de um corpo que desvia de horizontes outros e permite-se saltar no mergulho latino. Performance, como diria Maria Bethânia sobre o amor, não é mais do que o ato da gente ficar no ar antes de mergulhar¨.


Foto de Raphael Couto. Autor desconhecido!

No outro dia, no mesmo dia - pois as unhas não pararam de ser pintadas nem as enceradeiras de participar de todo detalhe- o batom se tornou negro: vínculo zero: beijo invertido, som de pum, cara de C.U. e risadas. Sim, o riso, cara borrada, o ridículo, o silêncio dos transeuntes boquiabertos como se pedissem vínculo zero: quem tem medo de beijo na boca?

Vínculo Zero: Bia Medeiros, Alla Soub e Natasha de Albuquerque. Foto: Cristiana Nogueira


Beijem-nos, antes que o substrato de nossas ações se torne figura de retórica!



Vínculo Zero: Bia Medeiros, Mariana Brites e Natasha de Albuquerque. Foto: Cristiana Nogueira


Na cidade que bombeia tanta informação, muitas árvores existem no centro em forma de ilhas. Nelas dobras e reentrâncias. O prazer áspero da casca convida a mão de Seda a criar mais dobras, invaginar café, barro e água do rio. O que fica nosso na cidade? O que vem conosco? O lance (rastro) das ações são para serem achados ou nunca vistos, o tempo e as pessoas agem diretamente sobre eles modificando e criando outras formas de existência para o que foi ali criado. Invaginações locais, orgânicas, brechas explícitas para o encaixe que também se decompõe. Desaparece. O café marca a cidade também no cheiro. Detalhe na paisagem sobreposta.

Depois do banho de igarapé com argila vermelha, rumamos. Da máquina que avoa só se vê nuvens baixas, paisagem encoberta: dentro da nuvem, vivendo de experiências - já somos outras - e agora de novo outras.  Os corpos se mutam, são entreabertos, permeáveis, errantes e desejantes de encontro.

Dos momentos, presenças e ausências partilhadas por uma rede performática que se expande e deseja conectar-se do Oiapoque ao Chuí. Corpos não sossegariam até imergir nas águas amazônicas e no rio foram da ebulição ao relaxamento. Mal entraram no avião e já dormem. Respiram alto sem critérios, todo barulho é nosso.

Foto de Daniel Seda. Autor desconhecido!